O que pode levar o adolescente a tentar o Suicídio

Suicídio de adolescentes: saiba como pais e educadores podem trabalhar a prevenção

O que pode levar o adolescente a tentar o Suicídio

O G1 ouviu psicanalistas, psiquiatras e especialistas no assunto para tentar ajudar pais, professores e amigos a tratarem do assunto:

1- É normal adolescente ter depressão?

Especialistas explicam que existe um tipo de depressão típica da adolescência, mas que não necessariamente configura uma doença ou transtorno mental.

Ela faz parte dos processos de mudanças fisiológica e emocional dessa faixa etária, quando as crianças fazem a transição para a vida adulta e, nesse período, passam pela busca da autonomia no mundo sem o apoio integral de seus pais, além de experiências de descoberta e conflitos relacionados ao autoconhecimento e à construção de sua identidade, definição da profissão, exploração da sexualidade etc.

O psicanalista Mário Corso, especialista no atendimento a adolescentes, explica que é justamente nessa fase que o adolescente entra em contato com o “mal estar da civilização”.

Segundo ele, nessa época da vida as pessoas se dão conta de que o mundo “é um lugar muito sem utopia, sem esperança”, o que pode provocar o desespero.

“É uma depressão típica da adolescência, você se dá conta do peso do mal estar no mundo, e isso varia conforme o ambiente político e cultural”, diz ele, ressaltando que, atualmente, o Brasil e vários países do mundo experimentam momentos de perspectivas pessimistas.

2- Dá para diferenciar sintomas de depressão e da adolescência?

De acordo com Corso, nem sempre, já que muitos deles são os mesmos.

“Fora alguém dizer que pensa em se matar, todos os sinais são sinais típicos da adolescência: ele está mais irritado, ganha peso, perde peso, fica apático. Qual é o adolescente que não tem [um desses sintomas]? Alguns suicidas escondem muito bem. Não tem nenhum termômetro eficaz.”

A chave, segundo os especialistas, é manter um canal de diálogo aberto com os filhos, para que a observação seja mais eficaz (leia dicas mais abaixo).

3- Todo suicídio é um resultado da depressão?

Não. “O suicídio vem em vários quadros clínicos e às vezes não tem nada a ver com a depressão”, ressalta Corso.

“Pode ser uma psicose. Nesse caso, o sujeito não é deprimido. E às vezes a depressão é uma defesa contra o suicídio. Parece que não tem sentido, mas tem.”

Segundo o psiquiatra Elton Kanomata, do hospital Albert Einstein, há ainda outros fatores que podem aumentar a chance de depressão. Um deles é a predisposição genética – independente da idade. No entanto, só isso, de forma isolada, não deve fazer uma pessoa tentar se matar.

“São questões natas da própria pessoa, questões de personalidade, de afetividade, e outros comportamentos. Uma soma disso, de uma forma bem complexa, leva ao suicídio”, disse Kanomata.

Alguns grupos de adolescentes também acabam ficando mais vulneráveis a desenvolver um quadro depressivo por questões sociais. Uma pesquisa publicada em dezembro de 2017analisou a resposta de 15 mil adolescentes no ensino médio sobre se eles já haviam considerado seriamente o suicídio, se já haviam planejado se matar ou se já haviam tentado tirar a própria vida.

De acordo com o estudo, 40% dos adolescentes LGBTs consideraram seriamente o suicídio, 35% planejaram e 25% tentaram se matar, contra 15%, 12% e 6% dos heterossexuais, respectivamente.

A Associação Americana de Psiquiatria já demonstrou que “os riscos associados a qualquer tratamento coercitivo e violento contra homossexuais incluem depressão, suicídio, ansiedade, isolamento social e diminuição da capacidade de intimidade.” Atacar as causas sociais, nesse caso, também é uma forma de prevenção.

4- O suicídio então é resultado do quê?

Os especialistas divergem em relação aos processos que podem levar ao suicídio.

Corso explica que é “uma cilada” ligar todos os casos de suicídio à depressão. “A gente costuma pensar no suicídio como o ponto mais fundo de uma depressão, como se houvesse um processo gradual no sujeito, que vai se aproximando de uma depressão e o suicídio”, diz ele.

Karina Okajima Fukumitsu, psicóloga e suicidologista, acredita que o suicídio é o ápice do que ela chama de “processo de morrência”, em que a pessoa “já está se sentindo desgostosa da vida, sem sentido, e vai definhando existencialmente”.

5- Se um suicídio acontece, de quem é a culpa?

Apesar de a Organização Mundial da Saúde (OMS) dizer que a maioria dos suicídios poderia ter sido evitada se houvesse tratamento adequado, os especialistas evitam endossar esse discurso porque ele carrega uma ideia de culpabilidade.

A corretora de seguros Terezinha do Carmo Guedes Máximo, de 45 anos, está no processo de entender que não tem culpa por perder a filha Marina há pouco mais de um ano.

A garota tirou a própria vida quando tinha 19 anos, em meio a vários meses de tratamento com diversos psiquiatras e psicólogos. “Ela estava em acompanhamento com dois [psicólogos], não era só um.

Fazia até sessão de hipnose”, disse a mãe, que administrava os remédios psiquiátricos de Marina e os guardava em um local secreto, além de nunca deixar a filha sozinha.

Mesmo assim, Marina dava sinais de que estava melhorando, falava sobre planos para o futuro, para o carnaval que estava próximo. “Ela estava gostando da terapia, era só questão de tempo para ficar tudo bem”, diz Terezinha. Porém, quando conseguiu ficar a sós durante uma hora, a adolescente providenciou a própria morte.

“A parte mais difícil é reaprender a viver sem a pessoa, e ter certeza que você não teve culpa. O que pega na gente é a culpa.”

6- É possível evitar o suicídio de alguém?

A pergunta não encontra resposta pronta. Os dados da OMS sobre suicídios que podem ser evitados são baseados em um estudo se debruçou sobre os detalhes de 15 mil suicídios e concluiu que, em 98% dos casos, a vítima tinha algum transtorno mental, o que indica que a morte poderia ter sido evitada caso a pessoa recebesse o tratamento adequado.

O problema é que oferecer o tratamento adequado é uma ideia mais fácil de defender do que de efetivamente colocar em prática. Isso porque cada caso tem sua subjetividade própria, todos envolvem uma série de fatores e o tratamento, tanto com remédios psiquiátricos quanto com psicoterapia, leva tempo para surtir efeito.

Karina se dedica ao tema há 25 anos, mas reconhece a dificuldade de lidar com o tema. “Tenho filhos, sou estudiosa de suicídio, mas não quer dizer que vou conseguir evitar se meu filho quiser se matar. Gostaria? Sim, mas é complicado”, explicou ela em entrevista ao G1.

“Dá para prevenir o suicídio, mas não dá para prever. Prevenção é diferente de previsão.”

7- Se prever um suicídio é impossível, como posso preveni-lo?

Mais uma vez, os especialistas explicam que não existe uma receita pronta nesse caso, mesmo em se tratando de pessoas a quem assistimos crescer dentro da nossa própria casa. Para Mário Corso, é uma tarefa desafiadora identificar sinais de que um filho adolescente está sofrendo de uma angústia ou depressão mais profunda do que as típicas alterações dessa faixa etária.

Karina Fukumitsu diz que é preciso avaliar mudanças de comportamento. E ver se nelas há sinais de que algo grave e não característico da idade está acontecendo.

Um adolescente que veste roupas de manga comprida e capuz mesmo durante verões quentes não necessariamente está escondendo algo, mas os pais podem ficar atentos em busca de indícios de automutilação e cortes nos braços, pernas, barriga ou pescoço, por exemplo.

“É uma necessidade deles também, de encontrarem o estilo próprio. Porém, comece a prestar atenção: Se houver automutilação, já é um processo de quem está pedindo socorro”, disse ela.

8- Manter meu filho em casa o protege de incentivos ao suicídio?

Não. Mesmo em casa, os adolescentes podem ter acesso a conteúdos e pessoas pela internet que valorizam a morte e podem atuar, direta ou indiretamente, como facilitadores do desejo de morrer. “Tem que se aproximar e dar uma olhadela, qual é o conteúdo que estão jogando, com quem estão conversando”, recomenda Karina.

Há uma década, um paciente de 16 anos atendido por Mário Corso tirou a própria vida em casa, depois de pedir auxílio a um fórum na internet sobre métodos eficazes de suicídio. Segundo ele, hoje em dia o risco que a internet oferece aos depressivos é o mesmo, mas uma melhora é o fato de cada vez mais pais terem a consciência desse perigo.

“O que mudou agora é o alerta”, diz ele, ressaltando ainda que a internet potencializa o bullying.

“As pessoas estão se dando conta de que o bullying hoje está pior. Antes era na escola, a pessoa sofria, mas depois ia para casa. Agora ele não para, não para nunca, é um inferno.”

9- Há uma lista de sinais comuns aos quais devo prestar atenção?

Sim. Em seus cursos, Karina compilou, a partir de diversos estudos, quatro listas diferentes de sinais comportamentais e verbais que podem ser diretos ou indiretos. Veja abaixo:

  • Tentativas de suicídio anteriores
  • Mudanças repentinas de comportamento
  • Ameaça de suicídio ou expressão/verbalização de intenso desejo de morrer
  • Ter um planejamento para o suicídio
  • Sinais observáveis de depressão
  • Oscilação de humor
  • Pessimismo
  • Desesperança
  • Desespero
  • Desamparo
  • Ansiedade, dor psíquica, estresse acentuado
  • Problemas associados ao sono (excessivo ou insônia)
  • Intensa raiva
  • Desejo de vingança
  • Sensação de estar preso e sem saída
  • Isolamento: família, amigos, eventos sociais
  • Mudanças dramáticas de humor
  • Falta de sentido para viver
  • Aumento do uso de álcool e/ou outras drogas
  • Impulsividade e interesse por situações de riscos

COMPORTAMENTAIS INDIRETOS

  • Desfazer-se de objetos importantes
  • Conclusão de assuntos pendentes
  • Fazer um testamento
  • Despedir-se de parentes e amigos
  • Casos extremos de irritabilidade, culpa e choro
  • Fazer carteira de doação de órgãos
  • Comprar armas, estocar comprimidos
  • Fazer seguro de vida
  • Colocar coisas em ordem
  • Súbito interesse ou desinteresse em religião
  • Fechar a conta corrente
  • “Eu quero morrer.”
  • “Gostaria de estar morto.”
  • “Vou me matar.”
  • “Se isso acontecer novamente, prefiro estar morto.”
  • “A morte poderá resolver essa situação.”
  • “Se ele não me aceitar de volta, eu me matarei.”
  • “Quero sumir. Não aguento mais! Só morrendo mesmo para aguentar.”
  • “Se isso acontecer novamente, acabarei com tudo.”
  • “Eu não consigo aguentar mais isso.”
  • “Você sentirá saudades quando eu partir.”
  • “Não estarei aqui quando você voltar.”
  • “Estou cansado da vida, não quero continuar.”
  • “Tudo ficará melhor depois da minha partida.”
  • “Não sou mais quem eu era.”
  • “Logo você não precisará mais se preocupar comigo.”
  • “Ninguém mais precisa de mim.”
  • “Eu sou mesmo um fracassado e inútil. Tudo seria melhor sem mim.”

10- Como agir caso meu filho ou filha apresentar algum desses sinais?

A saída, segundo Mário Corso, é que os pais consigam se manter próximos dos filhos, superando o obstáculo da construção da autonomia por parte dos adolescentes.

“Os sinais externos, se tu não está ali, tu não vai pegar. Mas uma das tarefas da adolescência é poder se virar sem os pais. Como tu respeita isso e ao mesmo tempo consegue ficar um pouco perto deles para saber o que está acontecendo? É um desafio que não tem receita pronta.”

Quando a situação aparentar a necessidade de intervenção, a recomendação da OMS é que as pessoas próximas procurem um momento de tranquilidade para conversar com o ou a adolescente sobre suicídio. O importante, nesse momento, é ouvir com a mente aberta e não oferecer julgamentos ou opiniões vazias. Só assim a pessoa se sentirá acolhida e a ajuda poderá surtir efeito.

Tanto os psiquiatras quanto os psicólogos poderão ajudar, nas suas respectivas áreas, no atendimento a esse adolescente. “Os dois [remédio psiquiátrico e psicoterapia] devem andar juntos”, explica Mário Corso.

“O remédio auxilia muito mesmo, em casos graves de depressão e de angústia. Nesses dois pontos ele faz maravilhas, porque ele te dá condições de o tratamento funcionar. Mas a raiz da depressão é o comportamento. A causa não é química, mas o efeito é químico. Qualquer neurose tem uma correspondência cerebral”, explica ele.

Para quem não pode pagar por atendimento psicológico ou psiquiátrico, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece o serviço por meio dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

Источник: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/suicidio-de-adolescentes-saiba-como-pais-e-educadores-podem-trabalhar-a-prevencao.ghtml

Suicídio na adolescência: uma questão cada vez mais urgente

O que pode levar o adolescente a tentar o Suicídio

O suicídio na adolescência é definido como o ato de um jovem, entre os 12 e os 21 anos, tirar a própria vida. Em alguns casos, o suicido pode ser resultado das transformações e de inúmeros conflitos internos que ocorrem na adolescência e, por isso, existe um maior risco de depressão, transtorno bipolar e do jovem ceder a pressões impostas pelos outros ou pela sociedade.

O comportamento suicida divide-se em 3 fases: pensar em suicídio, tentativa de suicídio e consumação do suicídio.

 O jovem que pensa em tirar sua vida, acredita que não existem soluções para os seus problemas e, normalmente, dá sinais de um desequilíbrio emocional, que pode passar despercebido por familiares e amigos, devido às características da adolescência, por exemplo. Veja quais são estes sinais que podem indicar o risco de suicídio.

Alguns fatores que favorecem os pensamentos e as tentativas de suicídio durante a adolescência incluem: 

1. Depressão

A depressão é a principal causa do suicídio na adolescência.

O jovem deprimido prefere ficar sozinho do que sair com os amigos e pode ter sentimentos como tristeza e solidão, que favorecem os pensamentos e o planejamento do suicídio.

Não ter um bom amigo ou namorado para conversar, que seja capaz de mostrar compreensão e compreender suas dificuldades, fazem com que a vida seja mais pesada e difícil de suportar.

O que fazer: Buscar ajuda de um psicólogo, psiquiatra ou mesmo grupos de auto ajuda, é importante para iniciar o tratamento da depressão, já que permite ao adolescente falar sobre seus sentimentos, buscando estratégias para aliviar a dor e sair da depressão. Em alguns casos, o psiquiatra pode também receitar medicamentos.

2. Problemas amorosos ou familiares

Problemas familiares como perda dos pais, separação, frequentes brigas e discussões, não ter espaço dentro de casa para expressar suas emoções ou não se sentir amado e compreendido pelo companheiro no relacionamento, são fatores que aumentam a angústia e a dor que o adolescente sente, levando-o a pensar em suicídio.

Como resolver: Encontrar tempo para conversar de forma calma e ponderada e proporcionar um ambiente de equilíbrio dentro de casa ou dentro do relacionamento amoroso, podem ajudar o jovem a sentir-se melhor. Mais importante do que apontar os erros do outro, é expressar os sentimentos com calma e sem julgamentos, mostrando a penas que quer ser compreendido.

3. Uso de drogas ou álcool

O alcoolismo e o uso de drogas também favorece o suicídio.

O uso destas substâncias em excesso, já indica que o jovem não está a conseguir resolver conflitos interiores, e que pode estar a passar por um momento de angústia ou frustração.

Além disso, a atuação nestas substâncias no cérebro modifica as funções cerebrais, o estado de consciência e o pensamento, favorecendo as ideias autodestrutivas.

Como parar: Em caso de vício o mais indicado é buscar tratamento contra dependência química, mas se o uso destas substâncias é esporádico ou recente, pode ser possível deixar de usar, sem ser necessário internamento.

Ocupar o tempo com atividades ao ar livre pode ajudar a distrair a mente, mas o mais importante é ser o jovem a decidir que não deseja mais usar drogas ou consumir bebidas alcoólicas.

Além disso, buscar um bom amigo para desabafar quando se sentir triste ou deprimido, também pode ajudar.

4. Bullying 

O bullying acontece quando outras pessoas denigrem a imagem ou até mesmo agridem fisicamente a vítima que se sente indefesa, sendo esta uma situação comum na infância e na adolescência, embora seja crime.

Como solucionar: Informar os responsáveis sobre o bullying e encontrar juntos uma estratégia para que deixe de acontecer. Saiba o que é bullying e suas consequências.

5. Traumas emocionais 

Ter sido vítima de um abuso sexual ou maus tratos são fatores que favorecem os pensamentos suicidas, porque a pessoa sente-se encurralada pelos problemas e não consegue lidar com a dor que sente diariamente.

Com o passar do tempo, a dor não diminui e a pessoa fica angustiada e deprimida, o que favorece os pensamentos suicidas, porque a pessoa pode sentir que tirar a própria vida, é a melhor solução para resolver o problema.

Como lidar com a dor: Os traumas emocionais devem ser tratados com o acompanhamento do médico psiquiatra, com remédios calmantes para dormir melhor.

Participar em grupos de apoio de auto ajuda também é uma grande ajuda para que a dor emocional, e até mesmo física, cesse.

Ouvir as histórias de outras pessoas que já passaram pela mesma situação e fazer tarefas que são indicadas nestes grupos, também faz parte do tratamento para superar o trauma. Confira as consequências e como lidar com o abuso sexual.

Além disso, pessoas que tiveram casos de suicídio na família, que já tentaram tirar sua vida, meninas que engravidaram na adolescência e os jovens com dificuldade escolar também têm maior tendência para pensar em suicídio.

Outro fator que não deve ser ignorado é que ouvir falar do assunto na televisão, rádio ou redes sociais também influencia e acaba favorecendo as pessoas susceptíveis ao suicídio, porque elas passam a pensar nisso como uma forma de resolver seus problemas da mesma forma.

Como evitar o suicídio

Para evitar os pensamentos e o planejamento do suicídio em jovens, é importante ficar atento aos sinais que podem indicar que a pessoa está pensando em tirar a própria vida.

Mudanças repentinas de humor, agressividade, depressão e o uso de frases, como: 'estou pensando em me matar; o mundo seria melhor sem mim, ou tudo se resolveria se eu não estivesse mais aqui' também servem de alerta. 

Mas somente identificar estes sinais não é suficiente, e por isso, é muito importante buscar ajuda profissional, com um psicólogo ou psiquiatra para definir as estratégias para parar de pensar em tirar a vida. 

Fortalecer o vínculo afetivo com a família, amigos e com uma comunidade de fé como a igreja, por exemplo, pode ajudar a ter relações interpessoais mais satisfatórias e aumentar a percepção de apoio, melhorando assim o bem-estar e a qualidade de vida do jovem. 

Se acha que não tem ninguém que possa ajudar, pode entrar em contato com o centro de apoio a vida, ligando para o número 141, que fica disponível 24 horas por dia.

Источник: https://www.tuasaude.com/suicidio-na-adolescencia/

Suicídio na infância e na adolescência: é preciso romper o silêncio

O que pode levar o adolescente a tentar o Suicídio

Itamar Melo
itamar.melo@zerohora.com.br

No começo deste ano, uma menina de Porto Alegre subiu no telhado de sua casa e ameaçou atirar-se lá do alto. Os pais foram chamados às pressas no trabalho.

Levada ao Centro de Promoção da Vida e Prevenção ao Suicídio do Hospital Mãe de Deus, a garota contou que tentara se matar porque ninguém lhe dava atenção na família.

O pai e a mãe passavam os dias fora, do início da manhã até a noite. A menina tinha oito anos.

Um garoto da mesma faixa etária ingressou na emergência do hospital, pouco tempo atrás, por ter ingerido uma moeda. O otorrino retirou o objeto e liberou o paciente. Uma semana depois, ele retornou. Desta vez, havia engolido várias moedas. Na investigação, descobriu-se que a motivação para a atitude era tristeza.

Situações desse tipo estão se tornando mais comuns nesta década, segundo diferentes levantamentos, resultando em aumento de mortes entre crianças e adolescentes.

Conforme a publicação Mapa da Violência, que se baseia em dados coletados pelo Ministério da Saúde, as faixas em que as taxas de suicídio mais cresceram no Brasil, entre 2002 e 2012, foram as dos 10 aos 14 anos (40%) e dos 15 aos 19 anos (33,5%).

No Rio Grande do Sul, de acordo com estatísticas da Secretaria Estadual da Saúde, ocorreram 60 suicídios nesse grupo em 2013, o maior número desde 2009.

Essas mortes são a face trágica de um problema muito mais abrangente, que diz respeito às tentativas de tirar a própria vida. De acordo com os registros existentes no Centro de Informações Toxicológicas (CIT), 4.

658 crianças e adolescentes gaúchos tentaram se matar, apenas por autointoxicação, entre 2005 e 2013.

Até hoje, jamais tínhamos constatado tentativas em idade tão tenra. E agora está acontecendo isso. É uma novidade, uma coisa pouco estudada, um novo mundo. Por enquanto, estamos apenas detectando o problema. Precisamos de pesquisas e de uma política específica.

Porque a metodologia de prevenção para criança e adolescente tem de ser outra.

Para começar, é mais difícil de detectar o risco, porque eles não verbalizam tanto quanto a pessoa mais velha” – observa o psiquiatra Ricardo Nogueira, coordenador do Centro de Promoção da Vida e Prevenção ao Suicídio.

Para o médico Vitor Stumpf, voluntário do Centro de Valorização da Vida (CVV), as tentativas de suicídio ente crianças e adolescentes são um problema muito negligenciado, pouco conhecido até mesmo por profissionais:

“A massa dos pediatras não tem conhecimento nessa área. Neste mês de outubro, tentei de todos os jeitos incluir uma mesa sobre suicídio em um congresso de pediatria. Negaram.”

Os dados do CIT foram dissecados em uma dissertação de mestrado defendida na UFRGS em maio.

De autoria da psiquiatra da infância e da adolescência Berenice Rheinheimer, o trabalho trouxe dados alarmantes, indicando tendência de forte aumento nas tentativas no universo dos oito aos 17 anos (abaixo dessa idade, os casos são automaticamente classificados como acidente). Em 2005, foram 492 episódios. Em 2013, apesar de a população da faixa etária ter recuado consideravelmente, os casos subiram para 626.

“Uma das coisas que chocam em relação a esses números é que a comunicação de casos ao CIT é voluntária. A realidade pode ser bem pior do que a registrada” – sustenta Berenice.

Se o suicídio entre adultos já está envolto por silêncios e tabus, é ainda mais entre crianças e adolescentes. A sociedade, em geral, não aceita a ideia de que eles possam querer se matar.

Pais de adolescentes que se mataram tendem à negação, uma reação ao sentimento de culpa.

Além disso, é escasso o conhecimento sobre que lógica rege os suicídios juvenis e sobre como preveni-los – os estudos e a experiência existentes dizem respeito basicamente a pessoas mais velhas.

A pesquisa de Berenice ajuda a iluminar algumas das diferenças e particularidades. Ao analisar os dados do CIT, ela descobriu que crianças e adolescentes tendem a tentar o suicídio no segundo semestre do ano – com destaque para o mês de outubro –, talvez como um reflexo de dificuldades escolares. Entre adultos, existem estudos demonstrando que a preferência é pelo verão.

Berenice percebeu também que as crianças atentam contra a vida em dias de semana – nas outras faixas etárias, o ato tende a ocorrer no sábado ou no domingo.

“Chamou a atenção que a véspera de Natal foi o dia com menos casos ao longo de nove anos. Depois, veio o Dia das Crianças. É um achado que não esperávamos. Não há relato sobre isso em lugar nenhum. Pode ter relação com o fato de nessas datas as crianças estarem em casa, com as famílias, mais satisfeitas. É uma hipótese” – observa a pesquisadora.

As tentativas de suicídio por autointoxicação envolvendo crianças e adolescentes também espantam em razão das substâncias utilizadas.

Enquanto em outros países os relatos envolvem a ingestão de analgésicos, por aqui as tentativas relacionadas a medicamentos são principalmente com antidepressivos (23,47%), ansiolíticos (20,76%), antitérmicos (15,20%) e anticonvulsivantes (13,01%). Em 98,5% das situações, a tentativa é realizada em casa.

“Como é que nossas crianças estão tendo acesso a essa medicação? É uma falha das famílias e da área da saúde, por não orientar que esses medicamentos têm de ficar escondidos” – alerta Berenice.

É difícil aceitar que uma criança ou adolescente possa querer se matar. Mais complicado ainda é explicar por que esse comportamento está em ascensão. O que existem são indícios e hipóteses.

O sentimento de abandono, a experiência de abusos físicos ou sexuais, a desorganização familiar, o desajustamento na escola ou em casa e a desesperança em relação ao futuro são alguns dos fatores que aparecem como motivadores.

Pesquisa feita na década passada em escolas de Porto Alegre revelou que 36% dos estudantes com idades entre 15 e 19 anos manifestavam “ideação suicida”, ou seja, pensavam em se matar.

Quando se combina isso com certos fenômenos recentes, o resultado pode ser explosivo. O uso cada vez mais precoce de álcool e drogas seria um desses gatilhos.

“O álcool e a droga provocam dano no sistema nervoso central e causam depressão, o que tem consequências” – diz o psiquiatra Ricardo Nogueira.

Outro elemento que parece contribuir é o acesso fácil, instantâneo e detalhado a qualquer tipo de informação, propiciado pela web. Nos últimos anos, houve exemplos de adolescentes brasileiros que tiveram o suicídio assistido e incentivado via internet.

O primeiro caso foi o de um porto-alegrense de 16 anos, em 2006.

A rede também facilita atos coletivos. No ano passado, um suposto pacto de suicídio feito por meio de redes sociais levou a duas mortes e seis casos de automutilação em Gramado e Canela, semeando o pânico em pais da região. Os envolvidos tinham de 12 a 18 anos.

Sabe-se que, quando um suicídio acontece, há um risco considerável de que outro venha a ocorrer, não muito tempo depois, na mesma família, escola ou comunidade. No caso de crianças e adolescentes, esse fenômeno gera preocupação extra.

“Nas crianças e nos adolescentes, isso é mais forte, porque eles são mais sugestionáveis. Começamos a ver que, em cidades de pequeno porte, havia dois, três casos em um intervalo de tempo curto.

Nossa hipótese é que essas pessoas se conhecessem. Pelo fato de saber que alguém fez uma tentativa, outro adolescente vai lá e também faz.

Isso mostra o quanto é importante ter um trabalho nessa idade” – diz Berenice Rheinheimer.

Entre os mais novos, a situação é especialmente cruel, porque a total consciência sobre a morte se consolida apenas por volta dos 12 anos. Nessa faixa etária, estão se tornando frequentes casos de automutilação com lâminas – o que os especialistas interpretam como uma forna de aliviar a dor psíquica por intermédio da dor física.

Conheça fatores que, em crianças e adolescentes, podem dar indício de que há algum risco.

Abuso de drogas

Álcool e drogas são muitas vezes uma forma de fugir dos problemas e, além disso, podem favorecer algum estado depressivo. Há relatos de uso cada vez mais precoce.

Desorganização familiar

A sensação de abandono e de falta de atenção pode levar a criança a atitudes extremas.

Quadro de depressão

Os adolescentes, especialmente, têm dificuldade em lidar com a depressão. Podem reagir com raiva e agressividade.

Alterações de conduta

Tornar-se agressivo, começar a faltar às aulas, piorar o desempenho escolar, dormir demais ou muito pouco, comer muito ou quase nada e isolar-se são mudanças de comportamento que devem ser acompanhadas de perto.

Gestações precoces

Em alguns casos, meninas que tentam abortar e não conseguem acabam fazendo uma tentativa de suicídio.

Abusos e maus-tratos

Abusos sexuais e físicos podem estar relacionados às tentativas. No Estado, há uma estimativa de que 10% dos adolescentes já os tenham sofrido.

Casos conhecidos

Crianças e adolescentes são mais sugestionáveis. Dados mostram que muitas das tentativas são feitas por quem conhece outra pessoa que já tentou se matar, seja na família ou na escola.

Autolesões

Está mais comum entre crianças e adolescentes a prática de infligir lesões em si mesmo com lâminas ou estiletes.

Tentativas anteriores

Quem já tentou se matar uma vez tem mais probabilidade de tentar de novo.

Apatia pouco usual, letargia, falta de apetite.

Insônia persistente, ansiedade ou angústia permanente.

Abuso de álcool, droga ou remédios.

Dificuldades de relacionamento e integração.-Dizer adeus, como se não fosse mais ser visto.

Preste atenção nos adolescentes

– Mantenha uma atitude não julgadora.

– Desenvolva uma escuta atenta sobre os problemas e angústias dos adolescentes.

– Ressalte a esperança na possibilidade de melhora pela psicoterapia ou pela medicação antidepressiva.

– A melhora inicial do paciente em meio ao tratamento não descarta hipótese de suicídio. Pelo contrário: em alguns casos, eles buscam a morte no momento da melhora.

– Não tenha preconceito com internação, caso especialistas recomendem.

Fique atento aos riscos da internet

– Mantenha-se vigilante em relação aos sites frequentados.

– É comum pessoas doentes buscarem na internet uma forma de se aliviar. Por vezes, acabam encontrando pessoas tão ou mais doentes ou com grupos anônimos que estimulam o suicídio.

Entrevista:

Carlos Estellita-Lins, coordenador do Grupo de Pesquisa de Prevenção ao Suicídio da Fundação Oswaldo Cruz (RJ)

Por que aumentou o suicídio na infância e na adolescência?O que há são explicações epidemiológicas. É como na economia. Por que a bolsa subiu?

Você encontra três ou quatro eventos importantes relacionados e diz que deve ter sido por isso. Esse tipo de critério cientítico é bastante frouxo, mas é o melhor que a gente tem. A partir dos nove anos, você tem dados de suicídio.

A partir dos 12 anos, já é relevante. O modelo do suicídio é sofrimento psíquico grande, depressão, ansiedade. No caso do jovem, é importante mencionar, existem situações de violência. A violência no Brasil não diminuiu, ela cresceu.

A violência da sociedade tem um impacto no suicídio?

Tem, por alguns mecanismos obscuros e outros claros. Situações de violência geram sofrimento psíquico, geram perdas. E especialmente o abuso, a violência física, com humilhação. Uma forma de violência institucional, que é o bullying, está fortemente associada ao suicídio no adolescente.

Alguma pressão social nova surgiu sobre os adolescentes nos últimos anos?

O aumento é, na verdade, uma curva de elevação. Não está marcando um acontecimento novo. O ponto que a gente pode discutir é a digitalização da sociedade, a virtualização. Há vantagens, mas cada vez mais a gente começa a observar as perdas, os malefícios, que ainda estão sendo estudados.

Que tipo de impacto teria a onipresença da internet?

No adolescente, a gente discute se há síndromes e distúrbios novos. A pessoa ficar vivendo num mundo virtual, levando a um maior afastamento, introspecção, a mais depressão, a um isolamento.

A internet facilita também o acesso a informaçõoes sobre suicídio

Isso é preocupante, porque o conhecimento dos meios muitas vezes é buscado por quem está com ideação suicida. Ele pode começar a planejar, e isso auxilia. Outro aspecto são ambientes virtuais onde se pode falar tudo, exortar o jovem a fazer.

Onde, de modo inconsequente, protegida pelo anonimato, a pessoa exorta o suicídio, dá conselhos, banaliza. A gente viu casos de meninas que foram humilhadas, que tiveram suas imagens eróticas divulgadas de maneira ilegal. É uma forma de cyberbullying.

Isso gerou uma forma de suicídio menos típica, que não está relacionada com sofrimento psíquico continuado, e sim com o amor-próprio. Isso é uma novidade. É muito grave.

Uma dificuldade adicional para a prevenção do suicídio entre crianças e adolescentes é o fato de esse público ser menos afeito a buscar ajuda por meio de uma ligação telefônica, afirma o médico Vitor Stumpf, do Centro de Valorização da Vida (CVV).

É no teclado e na internet que as novas gerações sentem-se mais à vontade. Esse é um motivo, explica ele, para o CVV ter passado a oferecer atendimento por chat ou chamadas de voz online.Desde setembro, em uma parceria com o Ministério da Saúde, o CVV do Rio Grande do Sul passou a ser o primeiro do país a oferecer ligações totalmente gratuitas.

Por causa do projeto, que será estendido a todo o país em caso de êxito, o tradicional número do CVV foi abandonado no Estado. Agora, a organização atende pelo 188. A mudança torna mais ágil o atendimento: o sistema do CVV conta com um roteador que consegue direcionar os telefonemas para unidades de atendimentos que estejam ociosas em outras cidades.

“A gratuidade é muito importante. Acredito que fomos escolhidos para começar esse projeto porque somos o Estado com mais notificação de suicídios” – observa Stumpf.

Como contatar

Por telefone: 188 (as ligações são gratuitas, inclusive por celular)

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Depressão na adolescência é coisa séria

O que pode levar o adolescente a tentar o Suicídio

Da adolescência somos todos sobreviventes. Uns mais, outros menos. Para a jornalista Eliane Brum, que é mãe, mais importante que o primeiro passo, a primeira palavra ou o primeiro dente, é o momento em que a sua cria descobre o vazio.

“Saber aguentar e escutar a dor de um filho, sem tentar calar com coisas o que não pode ser calado com coisa alguma, é um ato profundo de amor”, escreveu ela em seu texto “A Dor dos Filhos”.

Essa talvez seja uma das maiores tarefas para os pais e as mães de quem está na puberdade. A fase do “nem-criança-nem-adulto” marca o início de uma série de transformações avassaladoras.

Não por acaso serve como pano de fundo para esses indivíduos em formação enfrentarem uma doença que, até pouco tempo atrás, parecia coisa só de gente grande: a depressão.

O problema não só existe como já é bem prevalente no universo teen: atinge um em cada cinco jovens entre 12 e 18 anos (faixa etária considerada como adolescência no Brasil). Há uma lista de motivos por trás do panorama tão assustador.

“Questões sobre sexualidade, dificuldade em lidar com frustrações, bullying, além de pressão pela escolha da carreira e por um bom desempenho escolar estão na base de conflitos que podem funcionar como agravantes”, alerta a psicóloga Vera Ferrari Rego Barros, presidente do Departamento Científico de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP).

De acordo com a psiquiatra Lee Fu-I, coordenadora do Programa de Transtornos Afetivos na Infância e Adolescência do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (Ipq-USP), as formas de diagnóstico também se aperfeiçoaram, facilitando a identificação do quadro. Só que, para a intervenção ocorrer o mais cedo possível, tem um profissional imprescindível nesse roteiro: o pediatra.

“As consultas de rotina proporcionam um contato maior com os pacientes e seus familiares. Nelas, dá para perceber alterações iniciais, muitas vezes sutis”, explica o pediatra Claudio Barsanti, presidente da SPSP. Para fechar o diagnóstico, os profissionais devem estar alertas e a par das características do distúrbio.

Só que isso nem sempre acontece: dados mostram que dois em cada três médicos não identificam o quadro. Como consequência, adolescentes acabam passando por essa tempestade sem um tratamento.

Para evitar esse desfecho, a Associação Americana de Pediatria (AAP) resolveu atualizar diretrizes que estavam há dez anos sem revisão. Um dos objetivos é ajudar os profissionais a rastrearem a doença.

“Reconhecer a depressão na adolescência é mais difícil porque, nessa fase, todos mudam seu comportamento naturalmente, o que pode refletir em maior isolamento“, esclarece a psiquiatra da infância e adolescência Ana Kleinman, do Ipq-USP. “Para essa situação ser considerada normal e saudável, precisa vir intercalada com momentos de convívio”, pontua.

Não é só o pediatra que tem a incumbência de olhar a garotada com essa atenção. “Muitas vezes, o adolescente até quer pedir ajuda, só que não sabe como. Ele se sente julgado e diminuído pelos pais e colegas”, diz a psicóloga Camila Reis, da capital paulista.

Não à toa, entre as recomendações da AAP está justamente o maior envolvimento da família no mundo do jovem. Para isso, o primeiro passo é desvinculá-lo do termo “aborrescente”.

“Às vezes, o jovem começa a aborrecer os pais por demandar mudanças no sistema de interação familiar. Isso não significa que eles estejam errados”, nota a psicóloga Karina Okajima Fukumitsu, de São Paulo.

O diagnóstico e o tratamento da depressão juvenil

Mais difícil do que notar a dor dos filhos é reconhecer que esse sentimento é tão limitante que exige, sim, um acompanhamento especializado. E esse momento é um divisor de águas: ora, se a depressão em adultos é tão devastadora, imagine entre a turma que está só no começo da vida.

“O adolescente é mais intenso e impulsivo. Por isso, não tem experiência para tomar decisões claras nem capacidade de enxergar em longo prazo”, avalia Camila.

Daí os riscos associados à doença – principalmente quando ela não é oficialmente diagnosticada – tornam-se mais preocupantes ainda. A condição, cabe lembrar, afeta o corpo inteiro.

“A depressão aumenta o risco cardíaco e traz uma ameaça real de suicídio“, exemplifica Ana.

Sem contar que o isolamento faz com que a meninada perca a experiência da interação social – fundamental para a formação da personalidade.

Para muitos pais, o susto do diagnóstico vem acompanhado de outro temor: o de que o filho precise do tal medicamento “tarja preta” em seu tratamento. Mas esse medo não tem razão de existir.

“O remédio dá, muitas vezes, um espaço de respiro ao indivíduo que luta contra situações além das suas forças. Não quer dizer que ele precisará usá-lo para o resto da vida”, informa o psicólogo André Luiz, pesquisador do Centro de Atenção ao Sujeito no Luto (Casulu), em São Paulo.

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E é claro que, sozinhos, os comprimidos não deixam o dia a dia colorido como num passe de mágica. “Se você só toma a medicação e mantém os gatilhos ativos, a depressão não vai melhorar”, afirma Ana.

O melhor tratamento é sempre aquele que considera múltiplas abordagens.

“Independentemente da severidade, a psicoterapia é fundamental para que crianças e adolescentes aprendam a lidar com os sentimentos ou acontecimentos dolorosos que originaram a depressão”, explica Vera.

Fora do consultório, o desejável é que todos que convivem com o jovem deprimido consigam estar presentes para auxiliá-lo a encarar essa fase conturbada. Cercado de cuidados, ele passará a enxergar o amanhã com muito mais otimismo.

Sinais que denunciam a depressão

Isolamento: Quando o jovem prefere ficar o tempo todo no próprio quarto a sair e interagir com os amigos, é bom investigar.

Nervosismo: É normal se irritar. Mas se esse comportamento se mantém por longos períodos, é indício de que algo não vai bem.

Dores sem fim: Cabeça, estômago, costas e articulações doloridas ligam o alerta. Cansaço constante, letargia e exaustão também.

Fã do perigo: Ter condutas arriscadas ou viciantes pode ser uma forma de buscar alívio ou de se distrair da dor.

Notas em queda: Desempenho escolar ruim e reclamações da postura nesse ambiente indicam que a doença pode estar se instalando.

O fim da linha

“Se a depressão não for tratada, pode levar ao suicídio”, crava a psicóloga Camila Reis. E as taxas entre crianças e adolescentes têm subido significativamente. De 2000 a 2015, as mortes desse tipo aumentaram 65% dos 10 aos 14 anos e 45% dos 15 aos 19 anos – mais do que a alta de 40% na média da população em geral.

“Os jovens não sabem lidar com as frustrações da vida e deixam de enxergar a luz no fim do túnel mais rápido. A impulsividade própria da idade é uma agravante”, diz a psiquiatra Lee Fu I.

E os sinais de que existe o risco de o jovem tirar a própria vida podem ser mais claros do que se imagina. “Frases como ‘ninguém se importa se estou vivo ou morto’, ‘queria desaparecer’ ou ‘melhor seria se eu morresse’ devem ser encaradas como um pedido de escuta para um sentimento de angústia incontornável”, alerta a psicóloga Vera Barros.

Possíveis estímulos para o surgimento da depressão na adolescência

Hormônios a mil: O turbilhão hormonal deixa os jovens mais impulsivos. Só que, muitas vezes, eles não estão preparados para tanta intensidade.

Muitas emoções: O adolescente tem dificuldade de reconhecer bem os próprios sentimentos. Gerenciá-los é mais complicado ainda.

Pressão escolar: Além do bullying, a cobrança pela escolha da carreira, frustrações amorosas e insatisfação com o corpo entram em jogo.

Perdido em si: Na juventude, surge a necessidade de separação psíquica dos pais. O lugar deles se torna vazio e mais vulnerável.

Traumas: Perda de alguém próximo, sensação de abandono e grandes cobranças pessoais também abrem alas para a depressão.

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Источник: https://saude.abril.com.br/familia/depressao-na-adolescencia-e-coisa-seria/

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